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O Parlamento, a língua portuguesa e os valores - os exemplos que vêm de cima

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Como professor e investigador educacional, tenho-me preocupado seriamente com os défices de ensino-aprendizagem da língua portuguesa em Cabo Verde. Se, em certa medida, é compreensível e até mesmo aceitável a responsabilidade que é imputada aos docentes, o estado da língua portuguesa no país crioulo deve-se a diversos fatores, nomeadamente de natureza histórico-cultural, sociolinguística e política, que aqui não analisamos. Mas os exemplos que vêm de cima, nomeadamente do Parlamento cabo-verdiano, são, amiúde, pouco abonatórios para a educação dos mais jovens, não apenas no que concerne ao domínio da língua portuguesa mas também, em  particular, em termos de assunção de valores éticos  e do cultivo de boas maneiras e outras normas de trato social.  O vídeo que se segue é ilustrativo de como os bons exemplos nem sempre vêm, no caso, do Parlamento cabo-verdiano:   Parlamento: os exemplos que vêm de cima

Os manuais e o burro

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Há dois anos, estalou em Cabo Verde o  chamado "escândalo dos manuais", que marcou negativamente a atuação de altos responsáveis do Ministério da Educação, acusados de negligência e incompetência na gestão do processo de produção de alguns manuais, nomeadamente de Língua Portuguesa e de Matemática,  que foram colocados no mercado com numerosos erros de conteúdo e gralhas. Profesores, encarregados de educação e setores da sociedade civil reagiram a essa situação, pedindo a retirada de circulação desses manuais e a demissão dos principais dirigentes. Ao que se diz, até um burro resolveu entrar na "rejeição" desses manuais, como bem o ilustra um vídeo humorístico que o génio crioulo produziu  e fez circular amplamente nas redes sociais. Transcrevemos o que "disse" o buro (ver imagem) no referido vídeo: Em crioulo: Nhos txoman kes djentis ki sta fazi livru pa kriansas studa n'el, nhos fla's ma mi n'ka mesti kolega mas ki si, padja ka ten, txuba ka...

A carta

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Anastácio Lopes, o célebre  humorista cabo-verdiano,  conhecido vulgarmente por Nho Puxinho, conta a história de uma carta ao Compadre Magalhães, escrita em "português", que o destinatário teve de mandar traduzir para a língua de Camões para poder ser compreendida. Este conto  ilustra, com o exagero desculpável de um conto humorístico, a forma como em certos setores da sociedade cabo-verdiana se faz uso do Português,  língua oficial em Cabo Verde. Carta ao Compadre Magalhães

Inactivo em actividade!

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Passo a partilhar convosco um caso com que me defrontei no desempenho de determinado cargo, no Ministério da Educação. Mais do que humorístico, revela como, às vezes, se pode cumprir a lei e fazer a justiça por linhas tortas! Num processo disciplinar, instaurado na sequência de uma denúncia, ficaram provados os factos de que era acusado um docente, por sinal muito dedicado e, porventura, o que, na altura, mais se destacava no concelho em que trabalhava. Só que os factos de que o professor era acusado, e que o próprio confessou, tinham de ser levados às últimas consequências, em cumprimento da lei. Embora considerando todas as atenuantes, não havia como não aplicar-lhe a sanção disciplinar correspondente à infracção de que era acusado. Por outro lado, não era possível determinar-se a suspensão da sanção aplicada, visto que a pena em questão (inactividade por seis meses) era e é insusceptível de tal medida. Não se insurgindo contra a pena de seis meses de inactividade, que havia s...

A tramitação de um interessante requerimento

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O episódio que se segue, absolutamente verídico, mostra que a questão do domínio da língua portuguesa em Cabo Verde e, provavelmente, no espaço lusófono, precisa de maior atenção. 1. Um alto dirigente do Ministério da Educação de Cabo Verde recebe um requerimento do seguinte teor: “F de tal ___, Licenciado em Cumunicação Social pela Universidade de ____, venho mui respeitosamente requerer ao Vossa Excilência se digne mandar admitir -me numa das vagas de docente ou técnico superior ezistente ou que venha a ezistir , de prifirência na cidade da Praia. Pede indeferimento . Praia, …. Assinado: F de tal" 2. Analisado o requerimento, o dirigente em questão não hesitou. Exarou, de pronto, o seguinte Despacho: “Concordo com o indeferimento do pedido formulado pelo próprio requerente, cuja duvidosa competência transparece, aliás, claramente, no texto do requerimento. Praia, … O ____, Rubrica” 3. Descontente com o teor do despacho, o autor do requerimento faz a seguint...

A história de uma pesquisa na Internet

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Há uns anos, propus aos meus alunos de determinada turma, de um dado curso superior, que realizassem trabalhos de pesquisa sobre diversos temas, de entre os quais a "evolução dos paradigmas ou modelos de Inspecção Educativa". O grupo que escolheu este tema apresentou, em tempo record, um trabalho que, ao ler, descobri, imediatamente, ser um texto meu. Já me esquecera de que esse texto era um dos vários trabalhos que eu havia enviado, por e-mail, a um colega estrangeiro, que mos solicitara, no âmbito do intercâmbio de trabalhos académicos que vínhamos fazendo. Por isso, não foi sem surpresa que recebi como alegado trabalho de pesquisa esse texto meu que, do princípio ao fim, não tinha sofido qualquer alteração, a não ser, é claro, as menções da praxe: curso, ano, turma, disciplina e lista dos participantes. No intervalo, interpelei o responsável do grupo: - Recebi o “vosso” trabalho, mas não gostei nada do que me aprontaram! - Porquê, professor? É um bom trabalho! -...

Português, um problema!

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Há vários anos atrás, acompanhado de um inspector, efectuei uma visita de supervisão pedagógica a uma determinada escola do ensino básico da capital cabo-verdiana. Antes de iniciarmos a visita às aulas, dirigimo-nos, como é da praxe, ao gabinete da gestora, que nos recebeu, com simpatia, a fim de lhe apresentarmos os objectivos da acção inspectiva e recebermos algumas informações de que precisávamos. Porque as primeiras impressões eram favoráveis – a boa aparência externa da escola, a higiene no espaço circundante, a ordem que se vislumbrava na secretaria e o ambiente acolhedor do gabinete da gestora –, a conversa com a gestora começou com um elogio, quanto mais não fosse para colocar à-vontade a nossa interlocutora: - Aqui nos tem, senhora Gestora!- disse-lhe eu. Estamos aqui para, de algum modo, contribuirmos para elevar, ainda mais, a qualidade de desempenho da sua escola. No entanto, pelo que estou ver, se calhar, esta escola não terá muitos problemas!... - Oh! Sr. inspect...